Dor no Ombro que Irradia para o Braço

Sente o ombro a 'prender' e a dor a descer pelo braço? Perceba como a terapia manual alivia a irritação nervosa e melhora a força sem dependência de fármacos. João Goulart.

12 min de leitura
Ombro e Braço Comum Moderada a Alta
Recuperação Típica Aproximadamente 6 a 10 semanas (casos típicos)

O que é a Dor que Irradia do Ombro?

Diagrama de nervos irradiados no braço - Fonte: NETTER, Frank H.. Atlas de Anatomia Humana. 2ed. Porto Alegre: Artmed, 2000.
Os nervos que saem da coluna cervical passam pelo ombro; qualquer estreitamento ou tensão neste trajeto pode causar dor, formigueiro ou fraqueza até à mão. - Fonte: NETTER, Frank H.. Atlas de Anatomia Humana. 2ed. Porto Alegre: Artmed, 2000.

Quando a dor não se limita ao ombro e “viaja” pelo braço, estamos perante uma dor irradiada. Em muitas pessoas isto está ligado a irritação ou compressão das raízes nervosas cervicais (radiculopatia), que faz a dor seguir um trajeto específico no braço, por vezes com sensação de choque elétrico, dormência ou perda de força.

Ao contrário de uma lesão puramente muscular, esta condição sugere que algo está a comprometer a passagem dos sinais nervosos ou a circulação — seja na saída da coluna cervical, na passagem pela clavícula (desfiladeiro torácico) ou sob músculos do peito e ombro.

Esta sensação de braço “pesado”, formigueiro ou choque é um sinal de que o sistema nervoso está mais sensível e sob tensão mecânica, especialmente em movimentos como estender o braço, virar a cabeça ou chegar a objetos afastados.


A Minha Visão Clínica

Visão Sistémica

O braço é o fim da linha, não a origem

Muitas vezes, a dor que sente no bíceps ou no antebraço é apenas o “eco” de um problema no pescoço ou na primeira costela. Na prática clínica, faz mais sentido avaliar toda a linha do nervo — coluna cervical, ombro e grelha costal — em vez de tratar apenas o ponto que dói.

O objetivo não é “empurrar” o braço até deixar de doer, mas devolver mobilidade às articulações e tecidos que rodeiam o nervo, para que ele volte a deslizar com menos irritação e a dor deixe de se projetar ao longo do membro superior.

Tratamento Sintomático (Químico)

O recurso a anti-inflamatórios foca-se apenas em “adormecer” o sintoma.

  • Solução Temporária: Útil apenas em fases muito agudas.
  • Causa Mantém-se: O nervo continua comprimido por falta de espaço ou rigidez.
  • Ciclo de Dor: O sintoma regressa assim que o efeito do medicamento termina.
Abordagem Neurodinâmica (TrataMentes)

Trabalhamos para reduzir a irritação mecânica e melhorar o deslizamento do nervo.

  • Libertação do Plexo: Criamos espaço no grade costal e ombro para o nervo passar.
  • Técnicas Neurodinâmicas: Restauramos a mobilidade do nervo.
  • Mobilização Suave: Aumentamos a tolerância ao movimento sem forçar.

Causas Comuns da Irradiação

Origens da Compressão

  • Radiculopatia Cervical: Irritação ou compressão de uma raiz nervosa na base do pescoço (por exemplo, C5, C6, C7), que envia dor, formigueiro ou fraqueza ao longo de um trajeto específico no braço.
  • Síndrome do Desfiladeiro Torácico: Compressão de nervos e vasos entre a clavícula e a primeira costela, que pode causar dormência, sensação de peso ou alterações de cor na mão, sobretudo no lado interno do braço e dedos 4 e 5.
  • Pontos Gatilho (Trigger Points): Nós musculares profundos em músculos como infraespinhoso ou escalenos, que projetam dor à distância e podem imitar uma dor nervosa sem haver compressão significativa da raiz.
  • Tensão Neurodinâmica Aumentada: O nervo perde a capacidade de deslizar confortavelmente durante o movimento, gerando sintomas quando estende o braço, roda o pescoço ou mantém certas posturas por muito tempo.

Sinais de Alerta (Red Flags)

Consulte um especialista urgentemente se notar:

  • Perda de força evidente: Começar a deixar cair objetos da mão, dificuldade clara em levantar o braço ou apertar a mão.
  • Dormência constante e extensa: Perda de sensibilidade que não melhora mudando de posição ou que sobe rapidamente braço acima.
  • Alterações de cor ou inchaço da mão: Mão muito pálida, arroxeada, fria ou com edema súbito, que podem sugerir compromisso vascular no desfiladeiro torácico.
  • Dor noturna persistente e incapacitante: Dor que o acorda repetidamente e não acalma com pequenas mudanças de posição, especialmente se associada a febre, perda de peso ou trauma recente.

Como a Terapia Manual Ajuda

Para tratar a irradiação, utilizamos uma abordagem de descompressão progressiva e funcional, integrada com exercícios específicos:

  1. Mobilização Cervical e Torácica: Movimentos suaves e graduais para melhorar a mobilidade das vértebras cervicais e da zona entre omoplatas, abrindo espaço relativo por onde passam as raízes nervosas e reduzindo o estímulo nocivo.
  2. Técnicas Neurodinâmicas: Movimentos passivos e ativos que fazem o nervo “deslizar” entre os tecidos (por exemplo, para o nervo mediano, radial ou ulnar), ajudando a diminuir a sensibilidade e a melhorar a condução sem aumentar a dor.
  3. Libertação de Músculos-Chave (como Peitoral Menor e Escalenos): Trabalho específico nestas regiões pode reduzir a compressão sobre o plexo braquial no desfiladeiro torácico, melhorando a circulação e os sintomas no braço.

Estudos mostram que adicionar mobilização neural a um plano de fisioterapia/terapia conservadora pode melhorar dor, mobilidade cervical e função do membro superior em pessoas com radiculopatia cervical, sobretudo quando integrado num programa de exercícios e educação postural.

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ou ligue +351 937 543 312


O Caminho para a Recuperação

Resultados Típicos
1-3
Semanas 1-3:
  • Redução da intensidade e frequência de choques e formigueiros em muitos casos ligeiros a moderados.
  • Melhoria gradual da mobilidade do pescoço e menor sensação de “prisão” ao virar a cabeça.
  • Alívio parcial da sensação de “peso” no braço, sobretudo em repouso.
4-7
Semanas 4-7:
  • Continuação da recuperação da força de preensão manual e da confiança em usar o braço no dia-a-dia.
  • Dor mais localizada na zona de origem (pescoço/ombro), com menos irradiação até à mão.
  • Retorno progressivo a atividades como conduzir, trabalhar ao computador ou tarefas domésticas com menor limitação.
8+
Semanas 8-12:
  • Em muitos casos, a irradiação torna-se rara ou desaparece, mantendo-se apenas alguma sensibilidade residual em esforços mais exigentes.
  • Maior tolerância do nervo a movimentos de carga, impacto e posições prolongadas, graças ao reforço e à reeducação de movimento.
  • Retoma gradual e segura de desportos e tarefas profissionais mais pesadas, com plano de manutenção para prevenir recidivas.

Nota: Estes prazos são médias observadas em muitas pessoas com tratamento conservador bem orientado; alguns casos melhoram mais rápido e outros podem precisar de mais tempo, sobretudo quando a compressão nervosa é mais antiga ou severa.


Exercícios de Descompressão (Para Casa)

Deslizamento do Nervo Mediano

Deslizamento do Nervo Mediano

10 oscilações suaves · 3x ao dia
Com o braço estendido ao lado e a palma da mão para cima, incline a cabeça para o lado oposto enquanto flete o pulso (trazendo a palma da mão em direção ao antebraço). Traga a cabeça ao centro enquanto estica o pulso. O objetivo é um “alongar” leve e controlado, não dor aguda. Pare imediatamente se surgir dor forte, aumento súbito de formigueiro ou perda de força.
Recolha do Queixo (Chin Tuck)

Recolha do Queixo (Chin Tuck)

12 repetições · 3x ao dia
Recolha o queixo suavemente (criando o efeito de ‘papada’) sem inclinar a cabeça para baixo. Sinta a nuca a “alongar”. Este movimento ajuda a recentrar a cabeça sobre a coluna cervical e pode reduzir a pressão nas raízes nervosas.
Auto-Libertação do Peitoral

Auto-Libertação do Peitoral

1 minuto · 1x ao dia
Utilize uma bola de ténis contra uma parede, pressionando a zona abaixo da clavícula. Mova o braço lentamente para trás e para a frente enquanto a bola pressiona os pontos de maior tensão. Em muitas pessoas, isto ajuda a aliviar a compressão sobre a região onde passa o plexo braquial.

Evidência Científica

Referências Científicas
1

Basson, A., Olivier, B., Ellis, R., Coppieters, M., Stewart, A., & Mudzi, W. (2017). The effectiveness of neural mobilization for neuromusculoskeletal conditions: A systematic review and meta-analysis. Journal of Orthopaedic & Sports Physical Therapy, 47(9), 593–615.

2

Rafiq, S., Rafique, Z., Ahmed, A., et al. (2022). Comparison of neural mobilization and conservative treatment on pain, range of motion and disability in cervical radiculopathy: A randomized controlled trial. PLOS ONE, 17(12), e0278177.

3

López-Pardo, M. J., et al. (2024). Routine physical therapy with and without neural mobilization on pain and mobility in chronic cervical radiculopathy. Archives of Medical Science.

4

Savva, C., et al. (2013). The effect of cervical traction combined with neural mobilization on pain and disability in a patient with cervical radiculopathy. Manual Therapy.

5

Savva, C., et al. (2016). Effectiveness of neural mobilization with intermittent cervical traction in patients with cervical radiculopathy: A randomized clinical trial.

6

Sanz, D. R., et al. (2017). Effectiveness of median nerve neural mobilization versus oral ibuprofen on pain and function in carpal tunnel syndrome. Archives of Medical Science, 13(2), 431–439.

7

Physiopedia. (s.d.). Management of Thoracic Outlet Syndrome. Conservative treatment, nerve gliding and postural correction como primeira linha de abordagem.

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