Dor na Panturrilha que Aperta e Queima ao Caminhar: Por Que Não Passa?

Sente a perna pesada, a apertar ou a queimar depois de andar alguns metros? Saiba quando a dor na panturrilha é muscular, nervosa ou circulatória.

12 min de leitura
Panturrilha (Barriga da Perna) Comum em adultos e idosos Moderada (Limitante para a marcha)
Recuperação Típica Variável (4–8 semanas em causas mecânicas simples; mais tempo em causas vasculares ou neurológicas)

Começa a caminhar e, passados 200 metros, sente um aperto progressivo na barriga da perna. Parece que o músculo vai estourar ou que uma brasa se acendeu ali dentro. Pára um pouco, a dor alivia, mas assim que retoma o passo, o ciclo repete-se.

Se isto lhe soa familiar, saiba que a dor na panturrilha é um dos sintomas mais “enganadores” do corpo: pode ser apenas muscular, mas também pode esconder problemas de circulação nas artérias ou irritação dos nervos lombares. É por isso que o contexto em que a dor aparece é tão importante.[1][2]


O Mistério da Panturrilha: Por que dói ao andar?

Muitos pacientes chegam ao consultório convencidos de que têm uma “contratura eterna” ou que precisam de comer mais potássio para as cãibras. No entanto, quando a dor tem um padrão de distância (aparece sempre após caminhar X metros e melhora ao parar), isso é um sinal clássico de que algo não está a chegar ao músculo: ou sangue (oxigénio) ou informação nervosa.[1][2]

Os 3 Suspeitos do “Aperto” e “Queimação”

  1. Causa muscular e miofascial (o mais comum na prática): Pontos de tensão profunda (trigger points) nos gémeos (gastrocnémio) e sóleo. Sob carga repetida (caminhada, subidas, corrida), estes pontos podem gerar dor local, sensação de “braçadeira” a meio da perna e dor referida até ao calcanhar.[7]
  2. Causa nervosa (ciática ou estenose lombar): O problema vem do “cabo elétrico” — as raízes nervosas lombares e o nervo ciático. Ao caminhar, determinadas posturas podem comprimir estes nervos, causando dor em queimadura, peso ou fraqueza na perna, por vezes aliviando ao sentar ou ao inclinar o tronco para a frente (sinal do carrinho de compras).[1][2][3]
  3. Causa vascular (doença arterial periférica – alerta médico): As artérias que levam sangue à perna podem estar estreitadas. O músculo quer trabalhar, mas o sangue não chega em quantidade suficiente, surgindo dor tipo cãibra ou aperto previsível após uma certa distância de marcha. Aqui, é essencial avaliação médica, porque a resolução depende de controlar os fatores de risco e, em alguns casos, de intervenção vascular.[1]

A Minha Visão Clínica

Visão Sistémica

O Tornozelo e a Panturrilha: a bomba da perna

Muitas vezes, a queimação na panturrilha não é apenas um problema do músculo em si, mas de uma “dobradiça” presa. Se a articulação do tornozelo (talar) não tem mobilidade suficiente, a panturrilha é obrigada a trabalhar o dobro em cada passo, o que aumenta a tensão e o cansaço local.[4][5]

Os músculos da panturrilha funcionam também como uma bomba que ajuda o sangue a regressar ao coração. Quando se caminha pouco, se mantém o tornozelo rígido ou se usa calçado que bloqueia o movimento, esta bomba venosa trabalha pior, o que pode contribuir para sensação de peso, aperto e inchaço no final do dia.[6]


Como Distinguir a Origem da Dor?

Sinais que exigem avaliação médica
  • Pele fria ou mais pálida: A perna muda claramente de cor ou temperatura em comparação com o lado oposto.
  • Pulsos diminuídos: A pulsação no pé é difícil de sentir (a ser avaliado por profissional de saúde).
  • Dor em repouso ou à noite: A dor não acalma mesmo quando se senta ou deita, podendo obrigar a pendurar a perna fora da cama.
  • Histórico de risco: Fumador, diabético, hipertenso ou com antecedentes de doença cardiovascular, com dor nova na panturrilha ao esforço.[1]
Pistas de origem mecânica/neurogénica
  • Alívio ao sentar ou inclinar o tronco à frente: A dor diminui ao se apoiar num carrinho de compras ou ao dobrar o tronco, padrão típico de claudicação neurogénica por estenose lombar.[1][2][3]
  • Ponto de gatilho reproduz a dor: Ao pressionar um “nó” na panturrilha, surge exatamente o padrão de dor que sente a caminhar, o que sugere componente miofascial.[7]
  • Amplitude limitada do tornozelo: Sente o tornozelo rígido, sobretudo ao descer escadas ou agachar, e percebe que quanto mais o tornozelo mexe, menos a panturrilha se queixa.[4][5]
  • Sintoma ligado ao movimento e à carga: A dor varia claramente com o tipo de piso, inclinação, calçado e ritmo de marcha, mais do que com o simples facto de estar vivo ou deitado.[2][7]

Sintomas Comuns: “Aperta e Queima”

Onde e como a dor se manifesta

  • A “braçadeira”: Sensação de que um torniquete está a apertar a barriga da perna a meio do percurso.
  • Irradiação para o calcanhar ou tornozelo: A dor começa na panturrilha e “escorre” para o calcanhar ou para a frente do tornozelo, especialmente em subidas ou descidas.
  • Pernas inquietas ao final do dia: Necessidade de mexer as pernas à noite devido ao desconforto acumulado do dia.
  • Fadiga súbita: Sensação de que a perna fica de repente pesada, “de chumbo”, e que precisa de parar para recuperar.[1][7]

Atenção: Trombose Venosa Profunda (TVP)

Se a sua panturrilha estiver inchada, vermelha, quente ao toque e a dor surgiu de forma súbita (especialmente após viagens longas, imobilização ou cirurgias), não espere. Procure um serviço de urgência imediatamente. Nestes casos, a terapia manual é contraindicada e o diagnóstico precoce é vital.

Como a Terapia Manual Pode Ajudar

Depois de excluídas causas médicas graves (como TVP, claudicação vascular significativa ou compressão neurológica importante), o foco passa a ser devolver liberdade de movimento às articulações e tecidos moles da perna e tornozelo.[4][5]

  1. Mobilização do tornozelo (articulação talar): Técnicas manuais para melhorar a dorsiflexão e o deslizamento da tíbia sobre o astrágalo, reduzindo a sobrecarga mecânica na panturrilha a cada passo.[4][5]
  2. Neurodinâmica do nervo ciático/tibial: Movimentos controlados que permitem ao nervo deslizar melhor entre os músculos, reduzindo a sensação de queimadura ou de “perna de pau” em alguns casos de claudicação neurogénica.[2][3]
  3. Tratamento de trigger points: Inativação manual dos pontos de dor nos gémeos e sóleo, muitas vezes com manobras de compressão mantida e alongamento suave, ajudando a reduzir cãibras e dor referida.[7]
  4. Trabalho na fáscia plantar e cadeia posterior: Em muitas pessoas, a tensão sobe da planta do pé para a panturrilha; tratar apenas a barriga da perna não é suficiente se a base continuar rígida.

Estes métodos não substituem medicação ou cirurgia quando necessários, mas podem ser uma parte importante do plano conservador para melhorar a distância de marcha, reduzir dor e aumentar a confiança ao andar.[4][5][6]


O Caminho para a Recuperação

Resultados Típicos
1-2
Alívio inicial da pressão:
  • Redução da sensação de aperto e cansaço imediato após caminhar curtas distâncias.
  • Perceção de maior “fluidez” ao dar os primeiros passos do dia.
3-4
Mais mobilidade, menos queimação:
  • Melhoria da mobilidade do tornozelo e menor rigidez da panturrilha ao esforço.
  • A dor deixa, em muitos casos, de irradiar até ao calcanhar ou diminui de intensidade.
5+
Manutenção e prevenção:
  • Aumento da distância que consegue caminhar sem ter de parar por dor.
  • Autonomia para usar exercícios e rotinas simples de auto-cuidado para manter a panturrilha “solta”.

Nota: estes prazos são médias observadas em causas mecânicas e miofasciais. Quando existe doença arterial periférica ou estenose lombar significativa, o plano de recuperação depende da abordagem médica e pode ser mais longo.[1][2]


Exercícios de “SOS” para a Panturrilha

Libertação com Bola de Ténis

Libertação com Bola de Ténis

2 minutos por perna · Diário
Sentado no chão ou numa cadeira, coloque uma bola de ténis sob a barriga da perna. Procure o ponto mais sensível (“o nó”) e mova o pé para cima e para baixo lentamente, como se estivesse a “bombear” o tornozelo. Isto ajuda a estimular a circulação local e a libertar pontos de tensão. Evite este exercício se houver suspeita de TVP ou se a perna estiver muito inchada ou quente.
Mobilização do Tornozelo na Parede

Mobilização do Tornozelo na Parede

15 repetições · Antes de caminhar
Com o pé a um palmo da parede, tente levar o joelho a tocar na parede sem levantar o calcanhar do chão. Mantenha o movimento suave, sem dor aguda. Este exercício “abre” a articulação talar, melhora a dorsiflexão e pode reduzir a sobrecarga da panturrilha ao caminhar.[6]

Perguntas Frequentes

Pode ser falta de magnésio? O magnésio participa na função muscular, mas a dor que aparece sempre após caminhar uma certa distância e melhora ao parar é, na maioria dos casos, mais um problema de circulação ou de nervos do que simplesmente “falta de minerais”.[1]

As meias de compressão ajudam? Podem ajudar quando há insuficiência venosa (retorno do sangue dificultado), mas podem ser desconfortáveis ou até desadequadas em situações de doença arterial significativa ou compressão nervosa. É importante uma avaliação antes de as usar de forma prolongada.[1]


Evidência Científica

Referências Científicas
1

Nadeau, M., Rosas-Arellano, P., Leroux, A., et al. (2013). The reliability of differentiating neurogenic claudication from vascular claudication based on symptomatic presentation. The Spine Journal, 13(8), 806–812.

2

Houle, M., et al. (2021). Comparison of walking variations during treadmill tests to distinguish neurogenic from vascular claudication. Gait & Posture.

3

Khodulev, V., et al. (2023). Significance of A-waves in isolated calf pain as a manifestation of radicular pain: A case report. Cureus, 15(2).

4

Prabhakaradoss, D., et al. (2021). Effect of manual therapy and conventional physiotherapy on pain, ankle dorsiflexion and disability in acute and subacute ankle sprain. International Journal of Sports and Exercise Health Research.

5

de Paula, A. L., et al. (2025). Effect of manual therapy techniques on ankle dorsiflexion range of motion: A systematic review of randomized controlled trials.

6

Smith, J., et al. (2025). Restoring ankle dorsiflexion range of motion in athletes: A clinical update. Sports Medicine.

7

Davies, C. (2015). Gastrocnemius Trigger Points: The Calf Cramp Trigger Points.

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